Apparat e o dia em que o pop ficou mais criativo que a eletrônica
Para produtor alemão, clubes deixaram de ser fonte de novas tendências
01.11.06 15:00
Ele acha o novo álbum do Justin Timberlake mais inovador que qualquer outro lançamento de música eletrônica recente. Antes de procurar algum tijolo para arremessar em quem falou esse palavrão, saiba que dessa cabeça saiu metade de um dos álbuns de techno mais legais desse ano. A outra metade ficou por conta de Ellen Allien.
Trata-se de Sascha Ring, ou simplesmente Apparat (literalmente aparato em alemão), que pode parecer meio azedo em seu blog no Myspace, principalmente com a atual cena eletrônica. Mas o fato é que o cara tem moral para azedar. O inovador, pra dizer o mínimo, Orchestra of Bubbles, que ele assinou junto com a patroa do selo BPitch Control, conseguiu a proeza de vender muito bem no mercado da música eletrônica européia que, segundo Sascha, valoriza mais as antigas fórmulas que a criatividade.
Todo simpático, o alemão aproveitou uma deixa entre suas idas a Chicago, onde prepara novos lançamentos, apresentações do Orchestra e sua vida em Berlim para falar com o rraurl.com por e-mail.
Além das polêmicas, Sascha ainda falou sobre a vida na efervescente capital alemã, sua relação com Ellen e sobre as chances de dar as caras por aqui.
Entrevistamos Paul Kalkbrenner e ele contou como estava cansado com todas as labels e todo o hype de Berlim. Você também sente isso? Engraçado, porque a imagem que temos daqui é que Berlim é um paraíso para amantes de música.
Você quis dizer que Berlim é um paraíso para um amante de música eletrônica, não? Na verdade tenho que ser mais específico ainda, é um paraíso para um amante de música eletrônica para clubes.
Tem muita música por aqui, mas agora tudo parece ser ligado à festas, drogas, sexo e quem é capaz de agüentar mais que os outros. Qualquer um que tente outro tipo de festa se arrisca, passei dessa fase, já tive minha juventude, inclusive meu período minimal há sete anos atrás. O minimal de hoje não é grande coisa, é só um revival porque estamos vivendo um êxtase dos revivals. Não gosto de hypes, mas Berlim ainda é legal, muita gente bacana e interação, um bom lugar para trabalhar mas não para viver (muito stress).
Você disse no seu blog do MySpace que "parece que um disco só vende bem se atender EXATAMENTE os critérios populares dos clubes". Em sua opinião, quais são esses critérios?
É igual ao mainstream, onde uma faixa pop: verso, ponte, refrão, verso, segunda parte, refrão... Se não é assim, não é um hit (há exceções). Então uma faixa para clube tem que ser 4x4, cheia de breaks estúpidos, breakdowns e etc. Eu não sei, a música eletrônica está completamente perdida.
Para mim é espiritual. Eu não compro discos mas estou em clubes todo fim de semana, teoricamente esses são os lugares de onde os "novos sons" deveriam sair. Mas eu sempre ouço a mesma música. Mas eu não deveria reclamar minha vida está divertida e se eu não quero ouvir algo eu simplesmente não deveria sair.
Quando você escreveu que "o novo álbum de Justin Timberlake é mais inovador que um monte de coisas que ouvi em clubes", o que você quis dizer com "inovador"?
Essa é minha pergunta favorita. Obviamente não ligo para os vocais ou para as letras estúpidas (ainda que sejam engraçadas). Mas a estética de som e o jeito que algumas faixas são arranjadas (como em "LoveStoned", que se desenvolve para um final épico do nada) são bem doidas. A primeira música ("FutureSex/LoveSound") é incendiária e não soa gorda! Acho que o produtor pensou "isso é tão redondo que não precisa de um bassline gordo". Apenas o groove e esse som único que são coerentes com o mix. A faixa toda soa homogênica e parece que foi gravada embaixo d'água.
E aí você tem todos esses produtores de techno chatos e limpos que eu sempre ouço. Tudo muito polido sempre os mesmas basedrums e baixos. Não é que o álbum é tão "inovador", já que não é a primeira produção de Timabaland (artista de hip hop). Eu só demorei a descobrir e gostar do disco.
No seu blog você ainda fala sobre o pedal de guitarra, muito usado no country americano. Disso até Justin Timberlake, passando por sessões de estúdio em Chicago, como você incorporou elementos da música norte-americana?
Não curto hip hop e R&B e acho que os EUA não tem as melhores bandas de rock, todas que eu gosto são britânicas. Mas é sempre bom ter influências diferentes, e a América é tão maluca para um europeu que a visita pela primeira vez, tudo parece "ok, é como a Europa". Mas tudo é tão maior e quando você fica lá mais tempo acaba sendo tão exótico quando o Japão. Mas não se preocupe, não vou fazer um álbum de R&B.
Ellen Allien disse que apesar de todas suas influências e variações, sua música ainda é baseada no techno. Qual é a base da sua música? A melodia, o baixo, o que guia todo seu processo criativo?
Tenho muitas influências, esse é meu problema. Tenho tantas músicas no meu HD e todas vão para diferentes direções. Barulhos, riffs, acordes, samples que eu roubo, hahaha... Meu estúdio nem parece de música eletrônica mais. Tenho amplificadores de guitarra e baixo, um kit de bateria e vários microfones. Se estou "inspirado" fico pulando de um instrumento para o outro fazendo gravações rápidas e bagunçadas. Isso leva duas ou três horas aí eu preciso de duas a três semanas para limpar a bagunça.
Há muita música sua esperando para ser lançada? Você coleciona material que nunca vai sair do seu estúdio?
Tenho cerca de 100 idéias que não estão e talvez nunca sejam finalizadas. Mas estou tentando bravamente finalizar as melhores, que serão lançadas em um tipo de álbum "anti-eletrônico" ano que vem. E nenhum DJ irá tocar porque não é para as pistas apesar de eu achar dançante. Assim como meus lives, bastante melódicos, com partes calmas e com batidas.
Seis meses depois do lançamento, qual retorno você teve com Orchestra of Bubbles? Novos projetos com Ellen pela frente?
Nós vendemos muitos discos, o que é legal. E as pessoas parecem ter apreciado o que fizemos. Quando estou no estúdio com a Ellen é bem engraçado fazer música. Quer dizer, você tem que se comprometer e se dedicar pra caramba mas com ela foi tão bom! Acho que vamos fazer algo de novo mas isso vai levar um tempo.
Temos que perguntar porque só Deus sabe quando você e Ellen vão tocar no Brasil: sabemos por fotos no MySpace como é seu estúdio, mas como você define seu live?
Meus lives são bastante barulhentos e quentes. Eu gosto de lugares escuros e danço muito quando toco, as pessoas geralmente ficam bem surpresas, você deveria me convidar!