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Claro que é Rock celebra diversidade
Etapa do festival em São Paulo reuniu 25.000 pessoas
28.11.05 01:45
Mesmo com o frio intenso (termômetros marcavam 15º graus), cerca de 25.000 pessoas saíram de casa para encher a Chácara do Jóquei e ver as bandas do festival Claro que é Rock, no último sábado, dia 26 de novembro, em São Paulo. Marcado pela diversidade de bandas e do público - teve desde de pré-adolescentes com os pais querendo assistir o pop-gótico do Good Charlotte até roqueiro velho emocionado com o show do Stooges - o festival acertou no formato, com dois palcos, um de frente para o outro, onde os shows aconteciam, um de cada vez. Foi uma excelente saída para evitar os tão comuns atrasos e também para fazer o público circular, evitando aglomerações e tumultos.

No geral, o festival correu bastante tranquilo. Não houve incidente grave registrado pela Polícia Militar e a maior parte das críticas caiu sobre problemas como gigantescas (coisa de 40 minutos!) filas para comprar ficha de bebida ou ir ao banheiro. O estacionamento oficial, longe da área do show, também foi alvo de reclamações: caro, desorganizado, cheio de lama e com uma cara pouco confiável no quesito segurança. Outras críticas vieram em relação ao som de algumas apresentações. O Sonic Youth, em especial, fez uma apresentação com volume bastante baixo.

Bandas novas, Good Charlotte e Nacão Zumbi

O festival começou por volta das 15h com a sequência das bandas finalistas da edição anterior, durante a tour da banda Placebo. Foram sete bandas escolhidas para participar do festival: Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Volpina, Cartolas, Star 61, Spiegel,10Zer04, Os Imperdíveis e Moptop. No miolo disso tudo estavam os gaúchos do Cachorro Grande. No final da noite, o jurí anunciaria a banda vencedora.??O público dessa "primeira metade" do dia destoava bastante do que aconteceria mais tarde. Em sua grande maioria eram adolescentes e pré-adolescentes, chegando em massa para ver o pop-gótico do Good Charlotte enquanto ainda estava claro. Muitas camisetas da banda, muito lápis de olho e muitos pais atenciosos encheram os gramados, com boa parte indo embora ainda cedo, durante o sow da Nação Zumbi. Quem chegou por esse horário percebeu o show dos pernambucanos precurssores do Mangue Beat como um momento de transição, com muita gente buscando os carros no estacionamento e mais muita gente começando a chegar.

Fantomas

E quem entrou nessa hora, desavisado, pode ter chegado a pensa que havia uma banda com problemas técnicos no palco. Mas que nada. Era só o surtado Mike Patton junto com os membros do Fantomas, Trevor Dunn (que é colega de Patton no Mr Bungle), Buzz Osborne (do Melvins) e Terry Bozzio (substituindo Dave Lombardo, do Slayer, que não pode vir). Em uma atitude bastante corajosa por parte da organização do evento, que os chamou para cobrir o cancelamento do Suicidal Tendencies, o Fantomas causou (muita) estranheza entre o público que não conhecia a banda, ao lado de reações de veneração entre o público fã e entre membros das outras bandas nos bastidores. É um som para iniciados, difícil, nada óbvio, bastante irregular e barulhento. Quem curte a banda, no entanto, certamente saiu feliz. Afinal, a mistura de heavy metal, trilha de filme, orquestra, sintetizadores e microfonia promovida por Patton e cia não é vista sempre por aqui!

Flaming Lips

Parecia um show infantil onde colocaram alguma coisa estranha na água. Apesar da recepção morna do público - que não cantou e dançou tanto quanto merecia a banda de Wayne Coyne - o show do Flaming Lips esteve entre os momentos mais intensos e belos da noite. Começou com um discurso de boas-vindas, em que o vocalista proclamava um mundo melhor, um mundo espetacular, onde sua banda seria a trilha sonora. E o que se segiu foi exatamente isso: um espetáculo. O vocalista andou sobre o público dentro de uma bolha gigante, tocou um teclado infantil, fez dueto com uma estátua de madre e inundou o palco com esquilos de pelúcia e alienígenas simpáticos. Dos microfones saíram gemas do último disco do Flaming Lips ("Yoshimi Battle the Pink Robot") junto com faixas comuns ao ouvido do público ("She Don't Use Jelly" foi a que o coro de vozes mais acompanhou). E teve espaço para dois covers - "Bohemian Rhapsody" do Queen, que fez da Chácara da Granja o maior karaokê do mundo, com a letra passando no telão, e "War Pigs", do Black Sabbath, ironizando George W. Bush e companhia.

Iggy & the Stooges

Mas não teve para mais ninguém: a noite foi de Iggy Pop e dos Stooges. Com um set up básico e repertório baseado nos dois primeiros álbuns do Stooges ("The Stooges", de 1969" e "Fun House", de 1970), o quarteto formado por Iggy, os irmãos Ron (guitarra) e Scott Asheton (bateria) e o baixista Mike Watt (único que não fez parte da formação original do Stooges, nos anos 60/70), simplesmente arrasou a platéia histérica, composta tanto por adolescentes nervosos quanto por roqueiros da velha-guarda, espremidos juntos na grade. Iggy fez o prometido e não tocou nada da sua carreira solo. Ou seja, não teve "The Passenger", não teve "Lust for Life". Era um show do Stooges e, mesmo com logotipos gigantes nas laterais do palco e aquela distância absurda entre artista e público, dava para sentir a energia de um show de punk rock. O vocalista pulou na platéia, tirou as calças, correu, pulou, mandou a MTV se foder, cantou a plenos pulmões e convocou a geral a invadir o palco - prontamente atendido pelo público, que, em um momento de memorável baderna, colocou a equipe de segurança em estado de atenção. A tarefa de retirar os fãs de cima do palco acabou se monstrando inglória e, enquanto a banda destilava "No Fun", Iggy cantava abraçado com meninos e ganhava beijo na boca de meninas. A histeria esteve presente do primeiro ao último acorde, com momentos de catarse nas duas execuções de "I Wanna be Your Dog". Para muita gente a noite poderia ter acabado alí mesmo.

Sonic Youth

A tarefa de entrar logo após a explosão de energia dos Stooges não era das mais fáceis, e o Sonic Youth escolheu o caminho mais duro: ao invés de ganhar o público com faixas conhecidas de seu repertório, optou por um show com várias sessões de improviso, baseado principalmente no último disco, "Sonic Nurse" (2004). Thurston Moore se jogando no chão com a guitarra, "Bull in the Heather" e o encerramento com "Teenage Riot" foram pontos altos, mas a maior parte do show foi tomada por solos longúissimos, deixando o público parte extasiado, parte exausto. A característica mistura de sonoridades pop e tranquilas com momentos de pura fúria e distorção sonora também foi prejudicada por um baixo volume e pouca definição de som, sentidos por boa parte da platéia, gerando muitas reclamações.

Nine Inch Nails

Para muita gente, o melhor show da noite. Sem dúvida era a banda com mais produção, mais preocupação estética e mais volume de som. Quando a banda de Trent Reznor entrou no palco, o relógio já batia por volta das duas da manhã e teve início um retorno aos anos 90. Com muita fumaça, luzes vermelhas, roupas pretas e um vocalista malhado e musculoso, o NIN passou por toda a história do grupo, com faixas como "Burn" e "Closer" ao lado do repertório do álbum mais recente ("With Teeth"). Fãs e não-fãs se emocionaram com "Hurt", momento em que Reznor se sentou ao piano e acalmou a pilhada platéia. Quem há quinze anos esperava para ver a banda, certamente não ficou decepcionado. Em 01h30 de show, o vocalista deu tudo que tinha para dar ao público - até microfones e pandeiros foram atirados no povo - e não ficou devendo nada para nenhuma outra banda do festival, encerrando com maestria a melhor noite rock'n'roll do ano. Quem esteve na Chácara do Jockey em 26 de novembro de 2005 com certeza não vai esquecer.

Rio de Janeiro

As mesmas bandas se apresentaram no dia seguinte, no Rio de Janeiro, sem o mesmo sucesso de público. As apresentações cariocas na Cidade do Rock tiveram cerca de três horas de atraso, o que ocasiono o cancelamento da Nação Zumbi, que a organização do festival tentou jogar para o final da noite. A banda não aceitou ser varrida para baixo do tapete e não aceitou o novo horário, cancelando a apresentação.

PALCO A - Cachorro Grande, Good Charlotte, Fantômas, Iggy Pop and The Stooges, NIN

PALCO B - Nação Zumbi, Flaming Lips, Sonic Youth

Público

fotos na página: divulgacão
fotos na galeria: João Sal

Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
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