Black Eyed Peas - Bridging The Gap
A vida pré-Fergie era mais séria e menos hiteira
23.11.06 19:40
Gostaria de apresentar uma nova banda para você: Black Eyed Peas. Eles vieram da Califórnia e este é seu segundo álbum, de 2000. Por favor, não confunda esse Black Eyed Peas com aquele que tem uma loira gostosona e tem hits tocando sem parar em todas as rádios do sistema solar.
Esse Black Eyed Peas é mais "cabeça", sério, politizado, cru, orgânico, austero, muitas vezes introspectivo e intenso. Não fez sucesso porque não tem referências pop, não faz graça, nem tem Fergie no time nem qualquer das frivolidades do outro Black Eyed Peas. Enquanto este BEP do underground samplea Sly Stone e tem participações de De La Soul e Mos Def no seu álbum, o Black Eyed Peas celebridade samplea Dick Dale e faz colaborações com Jack Johnson e Sting.
Bridging The Gap é um bom álbum de hip hop, com timbres interessantes que passam por funk clássico em "Weekends", tons jazzy-bossa em "Cali To New York" ou eletrônicos em "Release". Já "Go Go" reinterpreta a letra de "Planet Rock" de uma maneira bem criativa. Mas é um produto mais para iniciados. A torrente de rap é incessante, entrecortada apenas por esporádicas aparições de uma diva R&b ou trechinhos vocais sampleados. São poucos os refrões que ficam na cabeça. É uma linha de hip hop "alternativa", que tem muito em comum com a família Jungle Brothers/De La Soul/Jurassic 5 de som.
Só para o final do disco este Black Eyed Peas indica que tem alguma coisa a ver com a máquina de fazer sucessos do álbum seguinte, Elephunk. A faixa "Tell Your Mama Come" é latino-funk festivo e a vocalista tem um que de Fergie. Já "Request + Line" é um soul-rap feliz com participação da sempre bem-vinda Macy Gray.
Este álbum não fez nenhum sucesso além do circuito college americano e de alguns meios especialistas (afinal, o BEP fugia da estética gangsta predomimante da virada do milênio o que significa que não agradou tanto à massa hip hop). Deve ter rolado uma frustração, já que o BEP sempre foi um grupo esforçado, desde suas origens com o nome de Atban Klann, no início dos anos 90. Pois diante do fraco desempenho do disco devem ter pensado: "E se a gente arrumasse uma loira? E se a gente falasse mais de sexo? E se a gente sampleasse coisas que até crianças de dez anos conhecem?"
O resto da história você já sabe.