Na segunda metade dos anos 90, a música eletrônica, tal qual a conhecemos hoje, ainda era uma novidade. Valia a divisão de gêneros do pop entre rock e techno - termos que guardavam, cada um, nuances diversas. Nenhuma banda daquele momento ousara, até então, cruzar a fronteira entre um estilo e outro. Não seria equivocado dizer que a história foi diferente a partir de
Mezzanine, o terceiro disco de estúdio do Massive Attack.
Estamos em 1998, e bandas como Prodigy, Chemical Brothers e Underworld dominam a cena. Radiohead, até então tido como uma boa promessa surgida do britpop - vale lembrar que
The Bends foi aclamado tardiamente - estipula um novo
ground zero musical com
OK Computer, lançado no ano anterior. Na época, por sinal, comentava-se que o Massive Attack lançaria uma versão remixada dele, numa colaboração entre as duas bandas. O projeto não foi para frente justamente pelo foco da banda em seu disco novo, que saiu precedido em seis meses pelo single "Risingson". Climática, secundada por baixo, bateria e guitarra, a música traz partes de "
I Found a Reason", apontando novas possibilidades de escuta em Velvet Underground. Não era pouca a ambição desse trio de Bristol.
Flash Content
Massive Attack - Risingson (mp3)
MARCO@ Brixton Academy (2003)

Mezzanine é um marco na discografia do grupo. Banda de lançamentos espaçados desde a sua estréia em 1991 (o igualmente primoroso
Blue Lines), o Massive Attack não lograva tamanho sucesso e repercussão até então -
Protection, o segundo CD, fora recebido com certa frieza e frustração pela imprensa britânica. Com seu potente mix de reggae, dub, base eletrônica, rock e instrumentos de cordas com timbres de inspiração oriental, o disco é uma espécie de canto do cisne da banda/coletivo, que tem formação flutuante. Este é, por sinal, o último registro com a presença dos três integrantes do seu núcleo principal, constituído por Robert Del Naja, Grant Mashall e Mushroom, além de Horace Andy, crooner do grupo.
Habituada a trabalhar em colaboração com outros artistas, a banda aqui conta com a participação de Liz Frazzer, a voz dos Cocteau Twins. Em seu peculiar canto, o casamento foi um tremendo acerto: "Teardrop", interpretado por ela, é até hoje um dos maiores hits da carreira de ambos (e atualmente é o tema de abertura da série
House, só que sem vocais). Outras duas preciosidades compõem o repertório do disco, "Black Milk", de groove intenso e hipnótico, um espiral em torno da voz angelical de Elizabeth Frazzer; e também a épica "Group Four", uma das mais extensas lançadas por eles até hoje, num enérgico duo que conta ainda com os gélidos sussurros do
frontman Robert Del Naja.
INFINITOSVale destacar o apurado sentido narrativo do disco, rico em suas convulsões sugestivas e aparentemente caóticas. Estilhaçados em intercambiáveis possibilidades, como a remendar infinitos, os sons do disco apostam em sensações climáticas. E atualizam o vocabulário pós-punk ao legar preciosidades como Angel - pegada vigorosa, guitarra elíptica -, ou ainda "Dissolved Girl", esta com a participação de Sarah Jay, sem esquecer também da faixa-título - um embate entre as duras vozes de 3D e Grant Mashall.

Momentos abrasivos como esses dão vez à suavidade do quase reggae "Man Next Door", ou ao new jazz "Exchange" - classuda e sincopada, a canção ressurge no fechamento do disco numa segunda versão, em curioso procedimento reiterativo. Talvez para legar o encerramento ao mestre-de-cerimônias Horace Andy, com sua interpretação oblíqua pontuada em reiteradas reticências, evidentes nos silêncios da voz e também no sample maroto que simula um repetitivo chiado de vinil.
Momento áureo dos anos 90,
Mezzanine mostra o Massive Attack no auge, com seu pantanoso potencial onírico a serviço de um inesgotável deleite sensorial.
Assistir o Massive Atack em um palco e virar para o outro lado e ver o Kraftwerk no Free Jazz.Fodaa!!!