Produzido por Soulwax e com pitacos de gente do LCD Soundsystem, Cassius e até Scissor Sisters, Tiga pavimenta um frondoso caminho no pop eletrônico
Quem viu Tiga no D-Edge em abril concluiu: electro é o cacete. O canadense mais ególatra da eletrônica entrou na cabine sem firula, vestindo boné e camisa social (!), e seguiu adiante numa imprevisível mistura de house
banger, techno e electro intenso, entrecortado por vocais. Claro, os hits estavam lá, como a potente e nova "Mind Dimension", e pelo que lembro a manjada "Sunglasses at Night" não deu as caras. Foi uma ótima noite para um artista que, de dentro do underground, se sai muito bem tentando ser pop.
What's that sound? I love that sound!

Ciao! Tiga, o segundo disco do montrealês Tiga James Sontag, resume bem essa obscura versatilidade pop. As onze faixas foram produzidas em conjunto com famosos ourives musicais, antigos parceiros seus: os belgas do Soulwax, o sueco Jesper Dählback,
Gonzales, Jake Shears (vocalista do Scissor Sisters), Phillipe Zdar (Cassius) e até Jori Hulkkonen + James Murphy na assanhada e boba "Sex O'Clock". Curioso que no anterior
Sexor (2006), a sensualidade era praticamente ausente em comparação com este lançamento - a brincadeira Human League de "
Shoes" é uma ode de Tiga à sensualidade feminina (o clipe é bem legal). E não é que em "Turn the Night On" ele dá uma sabonetada no bissexualismo? Com o verso "so many boys, so many girls, so many choices in this world" ainda não dá para por a mão no fogo por ele, mesmo que ele vibre
no twitter com o futebol espanhol. Esta faixa, aliás, traz referência explícita à agradável "Steppin' Out" (Joe Jackson), hitaço soul de 1982 com seu piano e base eletrônica
catchy.
Veja o clipe no
YouTube, e compare com a versão
bisex de Tiga.
Flash Content
Tiga - Turn The Night On (mp3)
Agora em 2009 o combo "Mind Dimension" e "Overtime" (liberadas para divulgação antes do lançamento) são os equivalentes em peso e poderio de pista para "Pleasure from the Bass" e "Louder than a Bomb", do último disco. Em "Mind Dimension", os peidos acid junto do refrão "everytime I look into your eyes I see the future" ecoarão nos tímpanos clubbers até o fim do ano, já que
os remixes estão rodando por aí e são eles que esticam a novela de um hit até o mais longo capítulo.
Já a fantasmagórica "Overtime" destila synths ravers e, com sua progressão tech crescente que culminam nos gemidos "uuuh", vão render bastante ainda. Vale o registro para o tech-house punheteiro de "Beep-Beep-Beep", um quase tribal onde aposto meus trocados que as notas apaziguadoras do refrão foram obra dos meninos do Soulwax.
Por mais que Tiga não faça live PA ou monte uma banda - ele deve ser produtor de computador, ultra-ajustado na mesa, tímido para o palco -,
Ciao! renderia uma curiosa turnê de shows, já que depois de dois álbuns exitosos a consistência de repertório é maior; e também porque neste disco o cara soltou o gogó. Não só nos refrões bobinhos das mais dançantes, do meio para o final o álbum é uma cantoria só, com destaque para "Luxury". O clima é tão sensual quanto Hercules and Love Affair, e o beat descompassado e tropical é eletrocutado por arpejos de Moog que, junto com a repetição do verso "Lu-xury!", leva Tiga para mais perto da disco do que do electro. Os vocais são macios, porém retos demais, então quando a voz assume um papel exageradamente protagonista, a massa desanda.
Caso de "Gentle Giant", "Speak, Memory" e "Love Don't Live Here Anymore". Os bonitos arranjos desta última não compensam a cafonice de Tiga em brincar de
Burt Bacharach do electro - ainda bem que um beat bem LCD Soundsystem entra lá no meio para aliviar tudo.

Pop, sexy, superficial, cavernoso e ácido.
Ciao! mostra a evolução pop de Tiga rumo a uma versatilidade cada vez mais distante da simples definição de electro, mantendo mesmo assim sua afetação electroclash agora em bases mais 4x4 e composições com identidade cada vez mais forte. Agrada ao paladar retrô por sua aura de Thomas Dolby dos anos 2000, e anima a festinha moderna mais próxima quando a corrosão do synth anda de mãos dadas com o beat sempre bem construído e os vocais fáceis. A boataria de que Madonna cantava em "Shoes" era bobeira. Mas pense como seria o máximo um disco da tia produzido pelo Tiga. Nada impossível, para quem já escalou Stuart Price.