Logo em sua estréia o
Arcade Fire demonstrou maturidade com uma meditação sobre a morte. Em seguida lançou um disco ainda mais intenso, com músicas como "No Cars Go". Agora, em seu fantástico terceiro álbum, o septeto confirma que trabalha apenas com padrões gigantescos.
The Suburbs explora o passado com audácia e ambição, mantendo a elegância e a acessibilidade.
Funeral, de 2004, foi um dos discos mais extraordinários da década. Apesar de inquietante, inspirado em diversas perdas familiares, a atmosfera era otimista, e as origens foram celebradas com vigor jovem. Seu sucessor,
Neon Bible, de 2007, foi outro ótimo álbum, ainda que menos deslumbrante. A sonoridade da banda foi expandida, mas talvez a substituição do romantismo pela amargura tenha sido a responsável pela sensação de exagero.
Em
The Suburbs, a banda está musicalmente mais sólida, rica e bem acabada. Embora ainda angustiado e obscuro, o grupo soa mais leve. As músicas nunca parecem sobrecarregadas. O disco é muito mais um conjunto de reflexões do que uma reação violenta contra tudo. É um álbum que evolui delicadamente e que ao vivo ganha tons épicos graças a suas fortes melodias -
veja aqui no nosso review do festival Lollapalooza 2010, em que a banda foi destaque.
Desse jeito, mais leve, o grupo não apresenta os tropeços de
Neon Bible, e o Arcade Fire prova que pode fazer grandes declarações sem soar como se estivesse carregando o peso do mundo. A faixa seis, "City With No Children", exemplifica este novo clima demonstrando uma maturidade que está longe de ser enfadonha, com seus riffs afiados. Mas, como mencionado, as 16 faixas são marcadas por um sereno desespero, pela dor de romantizar o tempo perdido da juventude. As letras estão cheias de desilusão. "We Used to Wait", por exemplo, é um lamento sobre a o ritmo implacável da vida que exige tudo de imediato. O piano evoca ansiedade, enquanto a bateria forte sustenta a canção.
A faixa dois, "Ready to a Start", é sobre sentir-se sobrecarregado pela fama, enquanto no pop barroco da sinistra "Rococo", o vocalista cutuca o hipster mais preocupado em seguir tendências do que encontrar um entendimento genuíno da vida.
A nostálgica "Suburban War" proporciona um dos momentos mais bonitos do álbum, cristalizando a sensação de perda que permeia o álbum. "Deep Blue", por sua vez, é uma referência ao supercomputador desenvolvido pela IBM, que derrotou o campeão do mundo de xadrez, Garry Kasparov, em 1996. A música é sobre o triunfo da tecnologia sobre o homem. "The Suburbs" é um disco que busca edificar, em todos os sentidos. Há um par de canções que sintetiza esse conceito. O desânimo de "Sprawl I (Flatland)" é amparado por "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)". Nesta última, banda sai da sua zona de conforto com um disco, e ainda comprova que Régine Chassagne equilibra o temperamento sombrio de seu marido e parceiro de banda, Win Butler.
O Arcade Fire mantém sua identidade, como na faixa 5, "Empty Room", com seu toque orquestral, marca registrada da banda. Porém, o grupo está realmente diferente. Aqueles que esperavam a aventura do "viver perigosamente" dos trabalhos anteriores podem desaprovar "The Suburbs".
http://www.youtube.com/user/ArcadeFireVEVO#p/u/8/RdYyYFymH-Y
O foco do álbum é fazer desabafos épicos. Além disso, sua ótima produção criou uma atmosfera sutil, com músicas mais enxutas. Mesmo assim, o disco precisa de tempo para ser completamente assimilado, ele cresce a cada audição. E vale a pena, porque é um álbum belíssimo - o grupo documenta a nossa existência e expressa preocupações reais e honestas com essa geração. Tudo isso com sensibilidade e arte.