Terceiro álbum traz paisagens distintas.
O nome do texano
Matthew Dear é normalmente associado ao minimal techno e ao microhouse. Não é pra menos: faixas como "Put Your Hands Up For Detroit" (feita em parceria com o getthotecher Disco D)" do distante 1999, "Irreparably Dented", de 2002 e a funkeada "Dog Days", de 2003, colocaram o cara na vitrine global da música eletrônica feita para dançar.
Mas Dear sempre foi um sujeito inquieto, e as paredes - ou barreiras - de uma pista de dança nunca aprisionaram sua mente criativa, e flertes ou longos namoros com diferentes tipos de música são marca de seu jeito especial de produzir, seja sob sua assinatura ou sob as alcunhas Audion, False ou Jabberjaw.
Se isso é realidade - ainda que em menor escala - desde
Leave Luck To Heaven (seu disco de estreia, de 2003) até - e aí de forma mais notável -
Asa Breed (de 2007), onde melodias estruturalmente pop andam de mãos dadas com batidas voltadas a fritar corpos nos clubes, é uma verdade ainda maior em
Black City, seu novo álbum.
Cruzando fronteiras entre o que é eletrônico e o que é orgânico e não deixando transparecer as diferenças, Dear já abre
Black City colocando uma linha de baixo e um chimbau em destaque. Sua voz grave vem rasgando a introdução de "Honey", e a viagem a diversas paisagens diferentes tem início.
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Matthew Dear - Honey (mp3)
E nessas paisagens distintas, não se vislumbra muito do techno - seja ele minimal ou Detroit - e nem do microhouse de outrora. A música continua cerebral e sombria, experimentando diferentes contrastes, mas as batidas 4X4 perderam considerável espaço para o que vem sendo chamado de electronic avant pop, ou em bom português mais um rótulo para tentar classificar o inclassificável.
Se não, como encaixar em algum sub-gênero uma música como "I Cant' Feel"? Electro pop funk? Electronic avant-garde indie? Experimental retro dance music? Pouco importa a embalagem quando o conteúdo é precioso. E o conteúdo das 10 faixas de
Black City valem um bocado.
Dear tem como influências nomes de peso da eletrônica (Kraftwerk, New Order, Green Velvet, Richie Hawtin, a cena de Detroit - Derrick May, Juan Atkins, Kevin Saunderson - e o industrial/new beat de gente como Nitzer Ebb e The Maxx), e todas essas influências podem ser sentidas - umas mais, outras menos - por todo o disco. Além da música das máquinas, David Bowie, Talking Heads, Brian Eno, Frank Zappa - na voz - e Prince fazem parte do grande buraco negro musical que é
Black City.
Nos momentos em que nos convida para dançar, Dear o faz reverenciando a disco music - disfuncional e cheia de timbres dark, diga-se de passagem - nos 9 minutos de "Little People (Black City)" e na ótima "Soil To Seed". E Darth Vader vem para a pista em "You Put A Smell On Me", track que poderia estar em qualquer coletânea de música eletrônica belga de 88/89.
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Matthew Dear - Soil To Seed (mp3)
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Matthew Dear - Shortwave (mp3)
"Shortwave", "Monkey" e "More Surgery", músicas que vem em sequência no disco, são uma bela surpresa e têm um quê de dub, remetendo ao Primal Scream na fase
Screamadelica. Mas esqueça o ecstasy e a fofura, aqui os negócios são outros. "Monkey" abre com a frase: 'Im, I'm a monkey, frozen in my monkey dream...'.Crítica à humanidade? Talvez.
Encerrando o álbum de maneira apoteótica, o piano e voz de "Gem" podem ser colocados ao lado do violão da canção "Give Me More" (de
Asa Breed) como os momentos mais dramáticos, belos e pop da carreira de Dear.
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Matthew Dear - Gem (mp3)
Black City junta os cacos dos anos 80 e suas diversas manifestações musicais e os cola invertidos, de maneira a nos surpreender; apesar das inúmeras referências, não soa como revival. Aliás, não soa como nada tendo tudo dentro dele.
É Matthew Dear se reinventando, e se valendo do que já existe para criar o novo. Não é isso o tal avant pop?