Em menos de três meses, no dia 20 de novembro, São Paulo assistirá ao show do grupo americano
Of Montreal, na quarta edição do festival
Planeta Terra. Kevin Barnes (vocais) e seus comparsas vêm no embalo do lançamento de seu décimo álbum de estúdio, este
False Priest. Sucessor do ótimo
Skeletal Lamping, de 2008 (
leia aqui), o disco reúne 13 canções de um rock colorido e cheio de nuances, enfeitado por teclados sintetizadores e outros timbres exóticos (como se não bastasse a voz mutante de Barnes).
Este é um trabalho essencialmente orgânico: a banda decidiu gravar os instrumentos ao vivo, em vez de utilizar sequenciadores com samples pré-gravadas. Suas músicas têm sabor inequivocadamente pop - com refrão grudento, melodias assobiáveis... Mas algo acontece no meio do caminho. Elas então desviam de qualquer estrutura previsível e se rendem a efeitos eletrônicos, a voz de Barnes afina... E o Of Montreal passa a lembrar mais um conjunto de electro-rock experimental com sérios problemas de identidade.
Mas é isso o que os torna especiais. Pegue "Coquet Coquette", escolhida para o primeiro single, como exemplo. Seus riffs de guitarra poderiam vir duma banda de rock qualquer, mas há algo ali - a começar pelo baixo funkeado, dançante. Depois vem a percussão com gongos tribais e, para fechar, um teclado sintetizador desregulado e crescente, que vai transformando a música num hino épico de ficção científica. No fim, tudo se mistura em uma sessão instrumental meio desmiolada.
Como resistir ao doce refrão de "Enemy Gene" - umas das mais belas do álbum? "Love breaks the machine, everything's half apart , what can it mean? / Oh, how can I trust my fractious heart knowing I have the enemy gene?". Ao fundo, teclados melodiosos sobem e descem pela escala, enquanto compassos mutantes de baixo e bateria completam o arranjo (a cantora americana Janelle Monáe também participa nos vocais).
Há uma forte dose de teatralidade em todas essas composições, como se ouve em "Hydra Fancies". Os versos são praticamente declamados (em tons ora agudos, ora graves), e o que parecia um monólogo se transforma numa conversa entre várias personagens - todas interpretadas por Barnes. (Em "Sex Karma", ele ganha companhia de Solange Knowles, irmã mais nova de Beyoncé, cujos vocais se desenrolam sobre uma balada morosa, sonhadora.)
Apesar de False Priest soar muitas vezes inofensivo, simplesmente por parecer uma história contada por alguém com parafusos a menos, há momentos de séria tensão filosófica. O mais cortante deles vem ao final do álbum, na multi-facetada "You Do Mutilate?". A faixa se reinventa completamente ao longo de seus quase sete minutos. E o que havia começado com uma animada sequência percussiva, termina sombria, com Barnes cantando por trás de um vocoder: "If you think God is more importante than your neighbor, you're capable of terrible evil / If you think some prophet's words are more important / Than your brother and your sister / You're ill and you're wrong / You're wrong".